A Manchete formou meu caráter

Semana que vem tenho uma festa à fantasia com o tema SBT, mas uma parte maior do meu caráter foi formada pela TV Manchete. Se fosse questão de escolher um lado e defender a causa até o final, mobilizaria o pessoal para um “get-together” alternativo, no mesmo dia e horário – mas temo que não viesse tanta gente assim pra prestigiar.

Mas era bom, viu. Aqueles anos entre 95 e 96 foram muito importantes porque representaram a entrada de bons animes na programação aberta. Em 01/09/95 estreava Cavaleiros do Zodíaco (os bonequinhos começariam a ser vendidos em 17/09.) Em 96 veio Sailor Moon e, na sequência, YuYu Hakushô, Samurai Warriors, Shurato e aquela presepada bem-intencionada que era o U.S. Mangá do Brasil, com Zeorymer (e suas cenas de nudez censuradas), M.D.Geist, Detonator Orgun e outros desenhos originalmente só distribuídos em vídeo.

Nessa época eu comprava animes em fitas VHS pela Internet. Era fantástico. Torrent? Grandes merdas.

Recolocação

A quem interessar possa, decidi cursar um mestrado em Development Practice, ou Práticas de Desenvolvimento Sustentável.

Não dizem por aí que os jovens de hoje só vão escolher o sexo lá pelos quinze anos? Algo parecido rola com o trabalho. Se você não tem mais tesão pelo que faz, não consegue cruzar a barreira dos trinta sem pensar em mudar de área. Depois, qualquer tentativa mais drástica fica muito difícil. E eu já estou vendo esse número cabalístico logo ali…

Encerrei um ciclo muito produtivo na última agência em que trabalhei e tenho atuado como freela desde este mês. Não é fácil se recolocar após três meses do outro lado do mundo. A pegada é muito diferente. Desacostumei a ficar em casa à tarde e a viver com tantas “mordomias” como banho quente todo dia, roupa lavada, carro… aliás, carro é uma coisa que eu honestamente não fico assim tão feliz em ter. Pelo menos ele vai ser importante de alguma forma pra me levar pra Austrália. Ou pra Irlanda, Canadá, não sei. Fato é que devo me mudar daqui, de novo.

Meu plano a partir desse ano é tentar fazer algo bom a gente que não seja cliente. Aos poucos, vou deixando a área de Comunicação. A experiência de um mês em uma ONG no subúrbio de Nova Délhi, lidando todos os dias com crianças, me ensinou tanto que agora eu agora só penso em poder retribuir. O curso de Development Practice é um pouco pra isso.

Questão de afinidade

Fico pensando como seria se eu estivesse num reality show.

Todo mundo ia chegar na casa pilhado, berrando e se abraçando. Sei lá, acho que eu ia chegar num sono ferrado e ir direto pro banheiro. Depois passar batido pela cozinha, onde estaria rolando a confraternização.

Ficaria dando uma volta na área externa até que um bocaberta qualquer viesse puxar algum assunto. (Tempo suficiente pra produção me chamar a atenção e me dar um microfone novo, mais potente.) “Vai lá pegar na despensa”, me grita o diretor, puto da vida. E lá iria eu pegar uma geringonça tão pesada que precisaria ser posta dentro de uma mochila de dezesseis litros. Algo tão surreal aos olhos do público que eu acabaria ganhando um tempo a mais por ali.

Os marombados me indicariam para eliminação por “questão de afinidade” e eu teria que ficar aguentando os discursos mocorongos do apresentador toda terça-feira. Na terceira revirada de olho que eu desse, ou no segundo “beleza, fala logo” que eu soltasse, o diretor daria um jeito de chamar os comerciais e me dar uma lição de moral no confessionário. Acho que suportaria aquilo calado, sem fazer facepalm ou bater a testa num muro de chapisco, só até conseguir pelo menos dois carros e um apartamento.

Acho que eu seria o participante mais ranzinza de todos os tempos.

Crise

Voltei a Belo Horizonte com crise espiritual.

Em Nova Délhi, me acostumei a encontrar um templo a cada esquina; a observar e vivenciar a profissão de fé em meio às ruas, em tendas erguidas à devoção. O Hinduísmo, religião predominante, teria encontrado em mim mais um fiel praticante caso eu ainda estivesse por lá.

Tinha criado o hábito de visitar o Laxmi Narayan Temple ao final de cada mês para meditar, pedir por sabedoria e agradecer pela riqueza e pelo sentido de toda a experiência. Usava várias pulseiras atadas ao meu pulso por gurus; uma delas está hoje sobre a imagem de Ganesha que trouxe na bagagem.

A meio mundo de distância, hoje busco refúgio em representações dos deuses, no Yôga e em cânticos hindus. Tive o privilégio de ganhar de presente um exemplar original do Bhagavad-Gita das mãos do amigo Anup Chakraborty. Leio um capítulo sempre que posso. Mas é impossível não sentir um certo vazio desde que cheguei.

For no one

Minha mesa está cheia de papéis amassados e de dias, tardes e noites se misturando às memórias. Como é bom isso, não? Fazia tanto tempo… São tantos detalhes, tantos fragmentos, tão inteiro, tão forte. Isso tudo é para você, é para tentar te fazer sorrir sempre que vir, pensar e tocar, é para guardar com o mesmo carinho com que eu te guardo em cada bom pensamento, em cada preocupação nos dias em que você não está bem. Quero que seja um abraço nessa sua alma que respira e emana tanta felicidade e sorriso. Quero poder te dar o melhor de mim, sempre.